Vou deixar o que escrevi há pouco na página Feminismo Liberal como forma de somar ao debate. __________

Esta entrevista da pesquisadora Juliana Pacheco é ótima por inúmeras razões, pois ela explora desde a percepção filosófica quanto às mulheres até as relações que desses pensamentos fundamentados decorrem.

E é fato: muitos filósofos foram extremamente machistas em vida. Claro, isso não é motivo para sermos anacrônicos e descartarmos suas obras por esse detalhe. Mas precisamos entender que boa parte da formação cidadã que temos é proveniente da linguagem, cujo fundamento é a lógica, que pressupõe que estaremos convencidos e justificados de algo na medida em que esse algo nos convença. Se por algum motivo pensamos de modo machista, portanto, não é sem influência da história do pensamento filosófico.

Mas algumas coisas me saltaram aos olhos, que não me parecem certas — e a bem da filosofia deixo aqui meus pensamentos.

Juliana cita a filósofa Diotima de Mantinea, que apareceu na obra de Platão, O Banquete, e mostra que a existência de tal filósofa é posta em dúvida de tal modo que não deveria ser, “já que igualmente só sabemos da existência dele [Sócrates] pelas obras de Platão.” Bem, ocorre que isto não é verdade. Há base para afirmar que Sócrates existiu não apenas por parte de Platão, mas de Xenofonte, reconhecido como um de seus discípulos ao lado de Platão, e de Aristófanes, um comediante renomado da Grécia Antiga. Se Diotima for citada para além das obras de Platão, o que até onde sei não é o caso, então podemos nos perguntar se isso é questão de apagamento ou, quem sabe, de mera criação platônica. De toda forma, espero que mais sobre Diotima venha à tona.

Outra afirmação que me chamou atenção, e até onde me parece está equivocada, é a ideia de que — [parafraseando] -, por ser menor o número de alunas e professoras de filosofia nas universidades, logo isso é um reflexo do machismo.

Pois bem, o que constatamos empiricamente é que é muito difícil comprovar causalidade entre machismo e escolha profissional. Na sociedade mais igualitária do mundo, a Noruega, mesmo com um quase inexistente machismo o que vemos, na prática, é uma alta setorização entre “trabalho de homem” e “trabalho de mulher”. Em geral, mulheres tendem a trabalhar em serviços de cuidado e de bastante relação interpessoal, como enfermagem, enquanto homens tendem a trabalhar em serviços menos sociais e mais lógicos, como engenharia. Em contraposição, em países com maior desigualdade de gênero, como a Índia, as mulheres estão mais inclinadas a trabalhar em “trabalhos de homem”. Nesse sentido, se há poucas mulheres na filosofia, e especialmente se não há de um modo ideal de 50/50, isso está longe de ser apenas por fatores culturais.

Pode-se argumentar aqui que o problema são as ‘instituições machistas’ que filtram a entrada de mulheres, mas seria uma afirmação duvidosa, uma vez que, tendo já ingressado numa instituição universitária, há plena escolha para decidir qual carreira seguir. No máximo, o que há são professores misóginos em específico tentando prejudicar alunas em particular, mas do particular não se segue que o todo, a instituição, seja misógina ou machista. Em outras palavras, temos que ir além da especulação filosófica para entender os motivos desse distante comportamento de gêneros, que faz ter mais homens lecionando Filosofia e mais mulheres lecionando Pedagogia — por exemplo.

Por fim, Juliana cita algumas filósofas dos dias de hoje, como Marcia Tiburi, Marilena Chaui, Judith Butler e Djamila Ribeiro. Eu confesso não ter lido muito do pensamento destas mulheres, mas em termos políticos é perceptível um padrão à esquerda. Márcia e Marilena são bem conhecidas por aqui. Butler, internacionalmente, também. Djamila é a nova no cenário, que o máximo que li sobre foi uma tese em que ela cria uma falsa dicotomia entre existencialismo e biologia, como se ainda vivêssemos tempos de debate dicotômico (e falho) entre natureza x cultura. Vale a pena conhecê-las, mas não pense que você encontrará algum liberalismo na visão delas.

Complemento, de modo agregativo, indicando outras mulheres filósofas contemporâneas, liberais e libertárias, que eu acompanho e que, ao meu ver, dispensam apresentação: Christina Hoff Sommers / The Factual Feminist , Wendy McElroy e Ayaan Hirsi Ali. A primeira é liberal e analisa dados concretos para falar de feminismo, a segunda é libertária (defendendo métodos práticos como uso de bitcoins para combater a sujeição de mulheres pelo Estado) e a terceira é nada menos do que militante intelectual contra a opressão do Islã sobre as mulheres (e tem a história de vida mais hollywoodiana que você poderá conhecer).

Enfim, sapere aude!

Via Filósofas Audaciosas

~~ Alysson

Mestrando em Filosofia (PUCRS). Produzo vídeos de divulgação filosófica no Youtube. Inscreva-se: http://youtube.com/alyssonaugusto

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