Você conceitua capitalismo para poder destroçá-lo e chamar qualquer coisa que vier depois de comunismo. Mas o fato é que não é porque “não é capitalismo” que logo “é comunismo”. Isso é uma falácia de falsa dicotomia. E basear todo um texto numa falácia é um tanto desesperado.

Além disso você descartou o principal do capitalismo, que é uma característica psicológica, pra não dizer genética: incentivos.

Todo ser humano é movido por incentivos ou por valores. O capitalismo foca apenas nos incentivos, porque funciona por vias de mercado e todo mercado é amoral (ele possibilita a transição da moralidade para a imoralidade por ordem espontânea). O ser humano incentivado é aquele que só faz algo em função de ganhar algo em troca. Sua geração de valor depende de ele, enquanto agente egoísta, ver valor no que está fazendo. Inclusive para fazer caridade, o ser humano precisa sentir que aquilo o engrandece, sentir que está ganhando algo por sua ação — seja material, seja simbólico.

Teorizar uma sociedade em que a tecnologia seja tamanha, tão avançada e hegemônica de forma que não haja sequer ao ser humano o que fazer, e chamar isso de comunismo quando, na verdade, o comunismo é ausência de Estado com coletivização dos meios de produção, me soa nonsense. Se sequer o indivíduo poderia atuar nesses meios de produção coletivos, já que tudo é feito por máquinas e não há necessidade da ação humana uma vez que ela agora está obsoleta, qual o sentido em coletivização, ou mesmo individualização? Não há sentido em uma sociedade que não existe para o funcionamento da ordem social e pelos indivíduos. Não haveria qualquer história de “o trabalho dignifica o homem” num mundo como esse, uma vez que sequer haveria trabalho e sequer haveria dignidade — a dignidade diz respeito ao valor do indivíduo para a sociedade, e uma sociedade em que o indivíduo é obsoleto torna inviável a dignidade. Não haveria motivo para existir, uma vez que o processo criativo foi solapado pela revolução tecnológica. Adotar essa visão teleológica (finalista) sobre o capitalismo é o mesmo que adotar uma visão teleológica sobre o ser humano: finalmente podemos ser extintos, e com razão. Que fiquem as máquinas.

Temos uma natureza movida por incentivos e por valores. Se não podemos exercer essas instâncias psicológicas que nos dominam, sequer temos motivos para existir. “O fim da história” comunista não passa de uma retórica apocalíptica, baseada numa falsa noção de que há uma luta dialética, materialista e histórica entre o “bem” e o “mal”; ah, e o “bem” é “de esquerda” — algo atribuído arbitrariamente -, havendo um grande motivo universal para todos existirmos, que é a abolição da malvadona propriedade privada e egoísmo humanos.

Eu realmente não compro retórica tão utópica, pra não dizer lunática. Mas fica sugestão de texto sobre o que seria algo próximo de uma sociedade verdadeiramente pós-capitalista: “Big Data: a nova religião da humanidade”, de Yuval Noah Harari

Mestrando em Filosofia (PUCRS). Produzo vídeos de divulgação filosófica no Youtube. Inscreva-se: http://youtube.com/alyssonaugusto

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