Toda a dignidade a quem terceiriza o seu trabalho

Angélica Lima e sua filha. Trabalhando de babá durante as manifestações deste domingo, foi indevidamente acusada de escrava por boa parte da esquerda brasileira. Angélica também contrata uma babá para a sua própria filha.

O caso da doméstica já deu o que falar, mas é um ilustre motivo para que possamos refletir sobre diversos aspectos de nossa sociedade. Um destes aspectos diz respeito à ideia de que “os patrões não deveriam terceirizar suas próprias responsabilidades” que, no caso, é cuidar dos próprios filhos.

Uma afirmação como essa é interessante por dois motivos:

1 — Vivemos num mundo globalizado e de constante terceirização de serviços; e

2 — Tem gente que, na ânsia de manter (ou elevar, e não há mal algum nisso) seu estilo de vida e seu poder de compra, acaba por buscar, com o serviço de terceiros, suprir responsabilidades que apenas o atrasam em suas metas.

Estas características de nossa sociedade compõem um quadro geral, onde também temos uma realidade palpável em que não apenas trabalhadoras estão em estado lastimável, mas também em que pessoas mais abastadas estão repletas de compromissos que, muitas vezes, acabam por estimulá-las a terceirizar a própria vida. Não, não estou dizendo que classes mais baixas não têm compromissos, apenas digo que “compromisso” não é algo exclusivo de gente com realidade financeira mais precária — gente que tem boa vida não costuma ser vagabunda (isso é coisa de quem recebe herança e se contenta com seu dote).

Mas a verdade é que não há problema na terceirização de responsabilidades. É o que fazemos quando usamos a tecnologia, por exemplo.

No contato/locomoção:
Suponhamos que temos que contatar uma pessoa que mora do outro lado da cidade. Você pega um ônibus e vai até ela (o que seria terceirizar a locomoção, já que não se está indo com as próprias pernas e se está dependendo de um motorista) ou envia uma mensagem no Telegram— que seria terceirizar a sua comunicação com este maravilhoso serviço?

Na alimentação:
Quando você vai à lanchonete e paga para ter um lanche, está terceirizando a sua responsabilidade de alimentação e delegando à cozinheira.

No crédito:
Você vai de empresa em empresa pagando o devido crédito que você acumulou ao longo do mês, ou deixa para o banco fazer isso por você?

O que quero dizer é que terceirização de responsabilidades é comum em nosso cotidiano, mas não costumamos percebê-la.

O que acontece é que, neste mundo globalizado, todo mundo trabalha cada vez mais para todo mundo — as redes sociais são exemplos disso, pois os “ricões” donos destas plataformas estão trabalhando para que continuemos sentindo prazer em utilizar de seus serviços (se não gostarmos, “desempregamos” eles e vamos para a concorrência).

Então acho que, antes de olharmos para aquela galera de classe média que empregou uma babá, seja ela negra ou branca ou parda ou roxa ou colorida, devemos olhar para nós mesmos: que adianta criticar terceirização alheia se não estamos dispostos a voltar pro mundo das cavernas?

Mestrando em Filosofia (PUCRS). Produzo vídeos de divulgação filosófica no Youtube. Inscreva-se: http://youtube.com/alyssonaugusto

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