Sobre a doméstica e os opinólogos de internet

Casal levou doméstica a protesto, e isso gerou comoção nas redes sociais.

Sobre o caso da doméstica, vista como vítima por estar trabalhando num domingo à tarde, por certos setores ideológicos da sociedade:

Muito está sendo dito quanto à empregada ser negra e isso ser um problema. A questão é: se fosse branca, tão ou mais pobre que a empregada em questão (supondo que seja pobre), ainda estaríamos nos importando?

Com toda certeza há estímulos culturais e incentivos econômicos para efetuar (ou não) a contratação de uma pessoa (assim como há estímulos e incentivos para que nos importemos ou não com esta questão).

Mas a questão é que isso não se limita tão somente às pessoas negras — é a razão social do emprego que determinará o tipo de empregado (para cantar, chame um cantor; para fazer a barba, chame um barbeiro; para educar, chame um pedagogo; etc).

Com a doméstica é a mesma coisa. Se ela for apta a realizar aquilo ao que se propõe, deve ser relevada para um possível contrato. Se ela é negra, paciência mas não é isso que vai definir se há racismo ou não por parte de seus empregadores, afinal se uma pessoa branca pode exercer as mesmas funções que ela, a pessoa branca poderia também ter sido contratada.

O que eu quero dizer é que ESTAMOS TIRANDO MUITAS CONCLUSÕES de algo tão fugaz e prosaico quanto uma imagem simples atirada aleatoriamente numa rede social.

Estamos tão viciados em problematizar que acabamos projetando todos os problemas que vemos sobre o mundo em tudo quanto é coisa que vemos por aí.

Esquecemos de aplicar a presunção de inocência em cada caso, e saímos acusando as pessoas envolvidas como preconceituosas/racistas/homofóbicas/machistas/etc. antes mesmo de vermos o quadro geral — e específico — da situação.

Não conhecemos os “coxinhas” em questão, mas basta terem empregado uma negra para que pensemos que essa negra é uma escrava/ignorante/vítima que não sabe o que quer da vida e é totalmente passiva diante de sua situação.

Sério, isso é preocupante, pois nos torna sim arrogantes e nos faz pensarmos que somos os heróis da pátria, os capazes de salvar as minorias e poderosos frente à opressão.

A verdade é que não somos, e é justamente por estarmos tão “cheios de si” que acabamos não vendo o que, de verdade, somos: uns aleatórios na internet brincando de filosofia/sociologia.

E enquanto brincamos, a questão concreta não deixará de existir: a mulher tá empregada, podia estar FUDIDA nesta crise, sem emprego, mas os brancos opressores etc e tal tão lá fazendo uma troca empregatícia consentida com ela, e MUITO provavelmente ela tá nem ligando pra gente aqui e pra sua foto circulando, sem sua autorização, na internet.

Enquanto empresário continuar dispondo empregos e nós ficarmos aqui apenas reclamando, empresários valerão muito mais (socialmente falando) do que todos nós juntos, os opinólogos de plantão das redes sociais.

Mestrando em Filosofia (PUCRS). Produzo vídeos de divulgação filosófica no Youtube. Inscreva-se: http://youtube.com/alyssonaugusto

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