Redes sociais: libertadoras ou geradoras de bolhas individuais?

Diariamente visito dezenas de páginas e sites na internet. Diariamente, também, me vejo fazendo associações entre os conteúdos que “consumo”, tentando entender qual a relação entre o que acabei de ler sobre livre-arbítrio e o que acabei de assistir, em vídeo, sobre biologia e acaso (por exemplo). Não é uma tarefa fácil fazer conexões propositalmente (às vezes é melhor não forçar, e deixar que o cérebro as realize durante o sono [o dia após a leitura pode ser mais propício para falar sobre um assunto]).

Nesses breves exercícios percebo que eu me importo com o que eu consumo intelectualmente, pois busco saber o sentido de estar consumindo (se foi pura curiosidade ou se havia algo para agregar valor, por ex.). Mas não posso afirmar isso de outras pessoas que consomem os mesmos conteúdos que os meus — ou conteúdos variados. Muitas vezes, sequer há reflexão das pessoas sobre o que estão fazendo na internet, e aqui quero pensar sobre isso.

Com redes socais (principais fontes de onde tiramos o que consumir) cada vez mais abertas à propagação de cada vez mais conteúdo diversificado, ficamos perdidos sobre o que selecionar como relevante para usufruir durante nosso tempo acessando a rede.

Justamente por isso o Facebook — e outras redes sociais que utilizem sistemas de “timelines” — faz uso de algoritmos para que seus usuários filtrem o que possam considerar mais relevante para si em meio a tanto lixo virtual (inclusive, se o lixo virtual for o conteúdo que o usuário considera relevante, pode ser ele o filtrado para consumo). Isso depende de uma série de ações que tomamos enquanto navegamos, que traçam um perfil sobre quem somos e quais as nossas preferências.

Se você curte 10 fotos de gatinhos por dia, por exemplo, você passa a ver mais gatinhos, com cada vez mais frequência, em sua linha do tempo. Se você costuma denunciar páginas com opiniões divergentes da sua, você passa a ver cada vez menos essas páginas e opiniões em sua linha do tempo. E isso serve para qualquer tipo de ação que você tomar por aqui — seja curtindo, compartilhando ou mesmo comentando, suas ações determinarão o que você verá nas redes sociais.

Nesse sentido fica fácil perceber que as redes sociais são ótimas para nos manterem interessados pelo que já gostamos, ao mesmo passo em que nos distanciam de desafetos. As consequências disso? Bem, deixo que você reflita solitariamente, afinal nossas bolhas são nossas responsabilidades (lembre-se de pensar na democracia e o quão importante é saber conviver com o diferente, ok?).

Mas é engraçado perceber que não apenas o indivíduo parece estar fadado a esse sistema, como também o coletivo. Páginas e grupos na internet estão cada vez mais nichados, refletindo cada vez mais o que seus integrantes pretendem consumir. É muito difícil encontrar uma página com conteúdo diversificado, no sentido de trazer pontos de vista diferenciados sobre um mesmo assunto. Há lugar para a oposição, desde que não seja no mesmo ambiente que defendemos. Estamos, definitivamente, usando e abusando de um sistema que nos dá voz, mas que engessa nossas visões de mundo em bolhas tristes e homogêneas.

As redes sociais nunca foram tão incríveis, ao nos auxiliarem a selecionar o conteúdo que nos interessa. Mas também nunca foram tão capazes de ceifar nossas oportunidades para darmos o próximo passo no sentido de uma evolução mais ampla, uma evolução de nós para nós mesmos, de nós para um mundo cada vez mais mente aberta.

Como definir, portanto, algo que facilita nossas vidas, ao mesmo tempo em que simplifica a complexidade própria — e tão dignificante — do ser humano? A resposta está nos algoritmos, a resposta está nas suas atitudes diante da internet.

Mestrando em Filosofia (PUCRS). Produzo vídeos de divulgação filosófica no Youtube. Inscreva-se: http://youtube.com/alyssonaugusto

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