Processo político e jurídico não são golpe

▬ Num mundo paralelo, os caras-pintadas gritam “Não vai ter golpe!”. ▬

Me parece extremamente problemática a ideia de que, devido ao impeachment ter um viés não só jurídico como também político, ele automaticamente torna-se um tipo de corrupção, um mal que atenta contra a democracia, um “golpe”.

Junte a isso o fato de que o ex-presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, foi condenado à prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Muitos entendem que sua condenação foi fruto de inclinação política e, por isso, entendem haver aí mais um segmento do golpe, que alguns chamam de golpe dentro do golpe.

Afinal, o que se está dizendo é que, se algo tem um lado político, logo este algo é mal-caráter. É triste que defendam isso, pois engana-se quem pensa assim.

Toda e qualquer manifestação pública que vise modificar a sociedade (tanto em termos sociais e/ou econômicos), seja por meios de movimentação social ou apelando às instituições públicas, é, naturalmente, política. Quando alguém usa a expressão “político” ou “política” para denegrir uma ação, esse alguém está defendendo a errônea ideia de que “política não presta”.

O que estamos vivendo no Brasil tem sim seu caráter fortemente político, e tem sim seu lado jurídico. O que acontece é que, porém, se realmente defendemos a democracia, devemos defender o fato de que as benesses da democracia não se limitam apenas àqueles com os quais concordamos ou queremos defender.

A democracia é esta grande mescla de interesses que se apoiam mutuamente ou se negam. A partir dessas uniões (para não dizer conchavos) e rupturas, acaba por direcionar o país para algum lugar, seja lá para onde for.

Quando alguém diz, portanto, que “democracia é respeitar os tantos milhões de votos dos brasileiros”, como muito se disse contra o impeachment de Dilma (ideia que serve também para defender Lula), está dizendo, indiretamente, que “democracia é respeitar só esses votos de pessoas que concordam comigo, ignorando as massas que protestam nas ruas e passando por cima dos votos que colocaram os deputados e senadores, responsáveis por fomentar o julgamento dos ex-presidentes, em seus atuais postos”.

Aceite: tanto Lula quanto Dilma não foram os únicos representantes democraticamente eleitos. Há diversos outros representantes que, quer você queira ou não, têm legitimidade para julgar sua oposição. E foi o povo, este que você tanto diz defender e amar, que os colocou lá.

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