Obrigado pela réplica, Thayse.

E sim, há muitas pessoas de movimento negro agindo em conjunto (o que me confere legitimidade para falar “o movimento negro”, numa generalização razoável) na tentativa não de consertar problemas sociais sérios, mas de continuar a segregar a partir de um discurso racista — discriminação baseada em etnia — , em que se defende a não-miscigenação (“afrocentrismo”) e se chama mulheres brancas de “palmito”. Se quiser, posso te mostrar pelo menos uma centena de prints mostrando casos em que o discurso de alguém do MN se equipara ao discurso de um conservador racista (bastando trocar o termo “negro” por “branco” e vice-versa).

Quanto a eu “conhecer o outro lado” por “ser branco”, tenho lá minhas dúvidas. Me lembro de quando eu saía com os amigos e era enquadrado por ter “características suspeitas” ou por “bater com o perfil do assaltante”. Além disso já pararam ônibus comigo dentro e eu fui um dos poucos a ser publicamente revistado — os outros eram caras mais velhos, sararás (pardos) e negros.

O que eu quero dizer é que as diferenciações entre os mais variados tipos de humanos podem ser extremamente sutis, de forma que enquadrar todos em “negro” ou “branco” passa a ser uma generalização frágil, dualista e que, no fim, acaba por manter o status quo, no qual, contraditoriamente, buscamos a equidade com atitudes que só mantêm os preconceitos raciais — a ponto de que muitas pessoas negras sintam que “tá tudo bem” agir “dando o troco”, porém se basear em experiências subjetivas para generalizar e induzir sobre a realidade das coisas é sempre um problema, o que significa que, na verdade, não tá “tudo bem” ser igual ou pior um racista branco, desmerecendo outras pessoas tão somente porque elas têm uma cor de pele diferente da sua (e é aí que a citação da Ayn Rand vem a calhar).

Você chamar uma mulher de palmito é complicado e nunca fará com que as pessoas, principalmente mulheres brancas acusadas como tal, aprovem tua causa. Da mesma forma, cair de pau em cima do Emicida só porque a namorada dele tem a pele mais clara que tu, e alegar que “preto de verdade” não deveria se relacionar com brancas, é o mais puro racismo em sua fase bruta. Os conservadores da metade do século passado estão aplaudindo o movimento negro atual, enquanto Martin Luther King Jr. está se revirando no túmulo.

Quanto a morrerem 84 negros por dia, peço que, por favor, quando mencionar dados estatísticos traga fontes, para que eu as verifique e possa atribuir as causas corretamente às mortes. Afinal, pegar o dado “84 negros morreram hoje” e concluir “logo, isso é racismo”, é totalmente falho por não haver qualquer rigor numa afirmação dessas — entre uma morte e uma conclusão premeditada sobre as causas da morte, está um tremendo hiato. Se não esclarecermos caso a caso, não poderemos afirmar, com folga de certeza, que o negro não morreu por outros motivos como, por exemplo, a marginalização que separa as classes econômicas em guetos (questões econômicas também matam, não apenas as sociais), ou por ter cometido um ato infracionário e terem reagido fatalmente, ou então, quem sabe, por mero acidente/acaso. Nunca poderemos afirmar de um dado solto que alguém morreu por racismo, nem por sexismo nem por homofobia ou o que for. Saberemos apurando os precedentes comportamentais do indivíduo criminoso, bem como suas motivações para ter cometido o ato. Dados soltos não provam nada além de si mesmos.

Enfim, perdão o textão — eu adoraria discorrer melhor sobre isso de forma a trazer não apenas argumentos mas tudo o que eu disse ser necessário para pensarmos a respeito disso tudo (definição de termos [racismo, machismo, etc.], de forma a associá-los a comportamentos individuais e podermos dizer se alguém se encaixa ou não; comparação entre movimentos ditos racistas com movimentos atualmente ditos “contra o racismo”; detalhamento de casos específicos a fim de buscar entender o escopo total dos motivadores que levam aos crimes e etc.). Se tiver algo a acrescentar, algo mais objetivo e capaz de ir além de uma mera dicotomia negro x branco (dicotomia, repito, frágil e que não releva os ‘tons de cinza’ entre o que seja ou não ser preto ou branco), ficarei feliz que possa agregar ao debate.

Bem, acho que é isso. Forte abraço!

Mestrando em Filosofia (PUCRS). Produzo vídeos de divulgação filosófica no Youtube. Inscreva-se: http://youtube.com/alyssonaugusto

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