O veganismo NÃO PODE depender da conscientização humana

Alysson Augusto posa, em foto editada, em frente a um grupo de porcos aprisionados em uma fazenda industrial qualquer.

Veganos precisam ser conscientes de causa animal?

Primeiro de tudo é preciso deixar claro que sim, é desejável estar consciente dos problemas sociais e a consciência deve ser sempre encorajada.

Entretanto, há pelo menos três pontos pelos quais o veganismo não pode depender apenas de conscientização para beneficiar os animais. Conheça estes pontos assistindo ao vídeo abaixo, e/ou lendo a transcrição a seguir.

Transcrição do vídeo:

1 — Historicamente a mudança ocorre por massa crítica e osmose, e não por consciência individual

Eu já falei sobre isso no meu vídeo sobre as 3 barreiras psicológicas do veganismo, quando mencionei que somos animais gregários e tendemos a reproduzir o comportamento daqueles que estão à nossa volta.

Vamos pensar aqui no processo de abolição da escravatura e do sufrágio feminino, usando racismo e sexismo como análogos do especismo.

Por mais ou menos 3 séculos os negros foram escravizados e tratados como meras propriedades dos brancos, aqui no ocidente. Mais especificamente nos EUA, a escravidão chegou a tal nível que uma guerra civil ocorreu, com a região do norte defendendo a Libertação dos negros, e a região do Sul defendendo a manutenção do regime de escravidão.

O detalhe é que, embora os Estados do Norte tivessem um discurso pró conscientização sobre a imoralidade da escravidão, tanto o norte quanto o Sul estavam defendendo modelos econômicos próprios, que ao ver de cada lado seria mais sustentável ou rentável. Não é à toa que, mesmo após a Libertação dos negros americanos, mesmo em Estados do Norte os negros continuaram sofrendo pelo ostracismo social e posteriormente as políticas de apartheid.

Coisa parecida ocorreu com o sufrágio feminino. Embora as mulheres estivessem defendendo uma conscientização da sociedade sobre seus direitos, mesmo atingindo seus objetivos elas continuaram sofrendo com o sexismo velado, com homens e mesmo mulheres as discriminando ainda que, agora, elas tivessem o direito ao voto.

Meu ponto aqui é simples: a sociedade pode mudar a despeito de toda a sociedade estar consciente dos problemas sociais.

Muitos fazendeiros e políticos brancos não deixaram de ser racistas e sexistas, mas os negros e as mulheres tiveram conquistas realmente importantes mesmo sem uma conscientização social plena.

E essas são lições históricas que podemos aplicar ao veganismo: os animais podem sim ter conquistas realmente importantes mesmo sem que as pessoas estejam conscientes da importância dessas conquistas.

Ou seja, é perfeitamente possívelms reproduzir hábitos veganos sem que você sequer entenda o que é veganismo. E se é mais fácil e mais rápido salvar os animais sem plena conscientização humana, então podemos tomar isso como um atalho para conquistas importantes aos Direitos dos animais.

2 — Tanto faz se você é consciente ou não da causa animal, o que importa é se você fere ou não animais.

Esse é o ponto mais importante que eu tenho a fazer neste vídeo.

Existem três formas bastante conhecidas de decidir se uma ação foi certa ou errada: intenções, consequências e virtudes.

Se o certo depender de que as intenções da pessoa tenham sido boas intenções, então tanto faz se os animais foram ou não salvos no final, o que importa é se, ao agir, a pessoa “desejava” fazer o bem.

Da mesma forma, se o certo depender das virtudes que a pessoa carrega, então tanto faz se animais foram salvos ao final do dia, o que importa é se a pessoa tem um caráter exemplar, é uma pessoa digna com algum histórico virtuoso e por aí vai.

Agora, se o certo depende das consequências, então a vida dos animais importa, já que salvar ou poupar vida de animais é sempre um resultado de nossas ações, e não algo anterior a elas.

Isso porque veganismo é e sempre será uma crítica em relação à predação do ser humano sobre os outros animais. E a predação não acaba por mera conscientização e boas intenções, e sequer vai acabar porque uma trupe de seres virtuosos de bom caráter, paladinos da moral, decidiu que tem que acabar. Na verdade, a predação humana sobre os animais acabará apenas quando ela, definitivamente, acabar.

Em outras palavras, a meta dos direitos dos animais deve ser o fim da predação sobre as outras espécies, e não a conscientização humana. Se o fim da predação não depende de plena conscientização, isso significa que temos um atalho para atingir os direitos dos animais, algo que podemos buscar para encurtar o caminho desta pauta que é tão urgente.

3 — Os animais não devem ser reféns da conscientização humana.

Por fim, um ponto estético, que é denunciar o capricho humano na hora de salvar seres inocentes.

Ao meu ver, há um quê de antropocentrismo em apostar na conscientização humana como libertadora dos animais.

É como se os animais dependessem de uma luz de sabedoria iluminar nossas cabecinhas humanas para que, finalmente, os próprios animais possam usufruir da liberdade que tanto merecem.

Sinceramente… Embora a conscientização seja sim desejável, eu acho que os animais não merecem ser vítimas de o ser humano se conscientizar, afinal até o dia que isso chegar, se é que vai chegar, os animais continuarão marchando na fila do abate incessante, cruel e desnecessário. Abate esse que, ao meu ver, pode ser cessado tal como ocorreu com os negros e as mulheres: sem dependerem de que a sociedade esteja iluminada sobre o problema que queremos acabar.

Sim, as mulheres e os negros continuaram tendo problemas variados mesmo com suas conquistas historicamente relevantes.

Mas essas conquistas não deixaram de ser conquistas apenas porque outros problemas continuaram. Aliás, problemas de ordem humana, vale dizer, porque um porco, um frango e uma vaca não parecem se importar com xingamentos e discriminações sociais, contanto que lhes esteja assegurado o direito à vida e à liberdade de movimento.

Então é isso o que eu penso dessa questão: você pode perfeitamente agir como um vegano, sem predar animais, sem que você realmente tenha a consciência de um vegano.

E se isso é verdade, então o que vai definir a efetividade do vegano não é que ele sinalize virtude, se diga vegano, consciente da causa ou o que for… Mas sim se ele efetivamente está colaborando para a não-predação de animais não-humanos.

E ao meu ver, isso pode ocorrer com muitas pessoas num futuro relativamente próximo, quando mercados, bens e serviços que não exploram animais se tornarem cada vez mais acessíveis, baratos e socialmente aceitos. Se uma sociedade se torna vegana por uma espécie de aderência natural, seus indivíduos passarão a beneficiar os animais a despeito de realmente terem a intenção de fazer isso.

Então, resumindo, veganismo é acima de tudo não predar animais, e só podemos saber se estamos predando ou não pelas consequências de nossas ações, e não por nossas virtudes ou consciência pessoal.

Bom, acho que é isso o que tenho a dizer sobre esse assunto.

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Enfim pessoal, eu vou ficando por aqui, meu nome é Alysson Augusto e a gente se vê no próximo vídeo. Um forte abraço.

Mestrando em Filosofia (PUCRS). Produzo vídeos de divulgação filosófica no Youtube. Inscreva-se: http://youtube.com/alyssonaugusto

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