O que o PCO nos ensina sobre economia

Partido da Causa Operária — PCO

Este texto foi originalmente postado em meu perfil no Steemit, uma plataforma que remunera o criador pelo seu conteúdo, confira:

Navegando em um dos diversos grupos em que habito no Telegram, a seguinte campanha política do Partido da Causa Operária (PCO) surgiu, e quero que vocês prestem bem atenção na mensagem:

Esqueçam o rostinho lindo dessa pessoa, não quero deixar vocês gamados nessa altura do campeonato entre direita e esquerda. Esqueçam, também, o termo golpe que carrega o cartaz.

Afinal, o que poderia ser mais apelativo que um salário mínimo de 4.000 R$!?

Como vocês sabem, atualmente o salário mínimo no Brasil gira em torno dos 900 R$. Aumentá-lo para 4.000 R$ seria o mesmo que um aumento superior a 400 %!

Já imaginou o que você poderia fazer com um salário quatro vezes superior? Quantas contas você quitaria? Quantas contas novas poderia fazer? Votar no PCO não seria lindo?!

Se por acaso você acha que o PCO está certo, então deixa eu encarnar o Rogerinho do Ingá aqui: ACHOU ERRADO, OTÁRIO!

Opa, perdão se te ofendi, juro que não foi a intenção (você precisa levar mais uns choques de cultura). Meu intuito é chamar sua atenção para um pensamento errôneo, economicamente falando, e pra isso não vou usar nada de terminologia técnica aqui, mas o simples bom senso e didatismo que me resta.

Você com 4.000 R$ em barras de ouro que valem mais do que dinheiro

Imagine que você tem um salário de 1.000 R$. Com este salário, você pode comprar a comida do mês, manter as contas em dia (pois você não é um ser de gastar muito) e ainda por cima consegue tirar uma graninha pra investir em bitcoins. Você é uma pessoa razoável e financeiramente educada.

Agora imagine que, por um decreto legislativo, o PCO conseguiu impor sua pauta de salário mínimo de 4.000 R$! A partir de hoje, você recebe um pouco mais que 4.000 R$! Maravilha, não é mesmo?

Bem, a verdade é que a economia de uma sociedade não pode prosperar assim tão facilmente. Não é escrever uma lei obrigando empresas a pagarem mais pros seus trabalhadores que fará os trabalhadores receberem, de fato, mais.

Isso porque existe uma coisa chamada “mão invisível do mercado”, uma ideia proposta pelo cara que hoje reconhecemos ser o pai da economia, o velho e bom Adam Smith.

Hoje em dia, entende-se que essa ideia reflete a nivelação espontânea dos preços de todos os produtos disponíveis no mercado. Assim, o preço de qualquer coisa varia constantemente, como se uma mão invisível estive manipulando eles.

Mas ocorre que essa mão invisível não passa de uma metáfora, ela não existe (pensou que existia? Pensou errado, espírita!). O que existem são pessoas fazendo trocas o tempo todo, convertendo seu tempo em dinheiro, e dinheiro em outras coisas, que refletem o tempo das pessoas. Quando você faz trocas, portanto, você está guiando essa mão invisível para o ajuste dos preços das coisas.

E essa lógica se aplica também ao salário que você recebe. Assim, quando o seu patrão te dá um salário de 1.000 R$, ele está dizendo pra mão invisível algo assim:

“ó, mão invisível, o trabalho desse cara aqui vale 1.000 R$”.

Mas a mão invisível é generosa, e ela só vai definir que seu trabalho vale 1.000 R$ se você aceitar que ele vale isso (do contrário, seria escravidão).

Saindo da sua relação com seu patrão para o mercado como um todo, teremos então diferentes trabalhos com diferentes valores de mercado, dado que diferentes patrões e diferentes empregados entendem que seus salários valem diferentes valores.

E quando uma classe de políticos desce uma lei sobre o mercado dizendo que agora o salário mínimo é quatro vezes superior, a mão invisível fica sabendo da notícia e vai lá consultar os patrões e empregados, pra ver se eles concordam com isso. Já que ninguém quer ficar fora da lei, acaba que eles são forçados a concordar, e então com ambos os lados aceitando esse novo valor de mercado do trabalho, a mão invisível abraça a ideia, e a partir de agora o mercado tem esse valor base para o emprego formal.

Mas vocês perceberam até aqui como a mão invisível é tremendamente maleável, e consegue se adaptar a todas as circunstâncias, mesmo as políticas? Saibam que com o aumento de salário não seria diferente (é agora que a parte “boa” da história chega).

Isso porque, quando o seu salário e o de todas as pessoas sobem, o que a mão invisível poderia entender, além de que todos estão concordando, agora, que podem pagar mais pelos mesmos produtos?

Com mais dinheiro no mercado, caso a produção não aumente, ocorre o que os economistas chamam de inflação: uma alteração generalizada nos preços que tenta nivelar a quantidade de dinheiro circulando com a quantidade de produtos disponíveis no mercado. Nesse sentido, a inflação é a mão invisível te dizendo:

segura as ponta aê rapá! Com tanto dinheiro pra tanta gente assim fica difícil eu manter os preços como estavam antes se vocês estão produzindo exatamente a mesma coisa!

E é isso o que acontece quando, por mero decreto legislativo, o mercado é forçado a fazer circular mais dinheiro (pra sermos exatos, 4 vezes mais) sem que esse aumento seja justificado pelo aumento de produtividade das pessoas (afinal você está fazendo as mesmas coisas que fazia antes, sem precisar gerar mais valor ao mercado, só que mesmo assim recebendo agora um salário maior).

▬ Alemão carregando um carrinho de mão cheio de dinheiro, o que, devido à hiperinflação alemã de 1923, efetivamente se tornou a carteira das pessoas / Daily Mail ▬

Assim, a mão invisível fica desesperada atrás de ajeitar as coisas e equilibrar os preços de acordo com o poder aquisitivo das pessoas. Se você pensou que conseguiria comprar 4 vezes mais coisas, saiba que você pensou errado (o otário fica por sua conta)!

E sabe o que vai acontecer quando você e todo mundo passarem a receber 4 vezes mais? Isso mesmo: o pão que antes você comprava por 2 reais valerá 8 reais; o pote de margarina de 7 reais valerá 28 reais; o leite de 3 reais valerá 12 reais, e assim por diante. Tudo porque, embora todos estejam ganhando mais, ninguém está fazendo por merecer.

No fim das contas, você passou sim a ter mais dinheiro. Mas são apenas mais notas, mais papel e moedas pra carregar caso você queira comprar os mesmos produtos de sempre. E isso tem um nome: desvalorização da moeda. Se antes você pagava suas contas direitinho, comprava a comida do mês e investia um pouquinho em bitcoins, desta vez não será diferente, pois o que aumentou não foi seu poder aquisitivo, mas tão somente a quantidade de papel dentro do seu bolso.

Por que você acha que a cada ano que passa o salário mínimo aumenta e os preços de todos os produtos básicos também? Será que é porque os empresários são do mal e querem fazer as pessoas passarem fome? Será que o governo está do nosso lado querendo combater os empresários maléficos fazendo eles pagarem salários mínimos maiores? Ou será que tudo não passa de um jogo frio e matemático expresso em mecanismos de oferta e demanda?

Se o PCO chegar um dia a ter relevância popular, certamente não será por entendimento básico de como a economia funciona. Antes, será pelo meio mais corriqueiro de políticos angariarem poder: pelo aproveitamento da ignorância daqueles que se faz questão de evitar educar.

Se você gostou do papo até aqui e não tem medo de aprender mais sobre economia, que tal assistir ao vídeo abaixo que preparei com muito carinho pra você, ó ser iluminado disposto a transcender seus próprios conhecimentos?

Clique e assista!

Mestrando em Filosofia (PUCRS). Produzo vídeos de divulgação filosófica no Youtube. Inscreva-se: http://youtube.com/alyssonaugusto

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