O problema não é a coisa em si, é como lidamos com ela

▬ Plutarco / Mental Floss ▬

Este texto foi originalmente postado em meu perfil no Steemit, uma plataforma que remunera o criador pelo seu conteúdo, confira:

Certo dia uma amiga me perguntou “você acha que tudo na vida tem seu lado bom e seu lado ruim?”. E, bem, pensei a respeito, e entendi a situação como algo a se pensar e tentar sair da mera aceitação do que nos parece óbvio, tentando um novo ponto de vista.

Por uma feliz coincidência, o @julisavio, em seu texto sobre Terapia Cognitivo Comportamental (TCC), falou algo que tem tudo a ver com a pergunta feita por minha amiga. Em suas palavras:

O princípio básico da terapia cognitivo comportamental é que O QUE IMPORTA NÃO É O FATO EM SI, O MAIS IMPORTANTE É NOSSA INTERPRETAÇÃO SOBRE O FATO.

E é esse tipo de raciocínio que tenho levado há um bom tempo em minha vida até aqui, desde que me reconheci como graduando em filosofia.

Na filosofia, afinal, somos levados a considerar as complexidades das mais variadas operando sobre qualquer tópico que seja objeto de conhecimento humano. Assim sendo, somos inclinados a aceitar que todo tipo de questão em disputa está embalsamada em nuances difíceis de captar pela mente individual humana, uma vez que é sempre possível atribuir novas perspectivas sobre aquilo que, a princípio, pode parecer perfeitamente consolidado — de modo que fechar o tópico em torno de um rótulo tipicamente “ruim” ou mesmo “bom” acaba por suscitar a possibilidade do erro.

De toda forma, a bem da verdade eu tendo a acreditar que é bem possível que em cada coisa existe seu lado bom e lado ruim. Inclusive tendo a ir um pouco além desse pensamento. Penso que as coisas não têm um “porquê” de acontecerem, mas simplesmente acontecem, muitas vezes sem qualquer motivo aparente e, possivelmente, com explicações que podem não ser alcançadas.

E aqui vale um parênteses: Quanto digo que as coisas não têm um porquê, não me refiro à causalidade, que se dá pela sequência de acontecimentos, justificando a existência de uma coisa em detrimento de outra que se passou. Me refiro a quaisquer tipos de justificações que fazem dessa cadeia de acontecimentos algo cujo significado é compreensível à mente humana, tal como se por meio dos fatos decorrentes houvesse um “sentido da vida” para ser extraído.

Quando estamos diante de algo que fomenta discussões acirradas e nos faz tomar posições, temos um tópico em disputa. Às vezes há certo consenso sobre se o tópico tende a expressar algo nocivo, às vezes o consenso vai na direção oposta, e diz que o tópico expressa algo positivo. De toda forma, o que está em jogo, no fim das contas, é nossa relação com o tópico — as justificativas que encontramos para bem ou mal recebê-lo. Assim, num ambiente onde descobrimos opositores para nosso ponto de vista, nossa tendência tribalista e irracional nos deixa emotivos o suficiente para tratar aquilo que repudiamos como essencialmente maligno e perverso — ou essencialmente benigno e valioso, caso estejamos do outro lado de entendimento sobre a questão.

Quando nos damos conta de nossos instintos nos inclinando a reduzir os problemas a ocasiões apropriadas para emitirmos nossos juízos e preferências, como se apenas o que compreendemos da questão pudesse ser verdade, temos uma grande oportunidade de engrandecimento pessoal clamando por atenção. Isso porque, esfriando os nervos e pensando mais cautelosamente sobre o assunto, conseguimos entender esse pensamento que até hoje se mostrou o mais pleno e razoável sobre tudo que há à nossa volta: “o problema não é a coisa em si. O problema é como lidamos com a coisa”.

É um pensamento simples e que pode ser entendido assim: “Não é que a coisa em si tenha um lado bom e um lado ruim. É a forma como lidamos com a coisa em si que dirá se ela é boa ou se ela é ruim” — claro, subjetivamente falando (é melhor evitarmos generalizações — pode não ser bom nem ruim pra alguma outra pessoa).

Então, deixando mais claro, acredito que tudo na vida tem perspectivas, não necessariamente lado bom nem lado ruim. As coisas por si só podem não ter lados bons nem lados ruins. Podem simplesmente ser. É o modo como as vemos e o modo como as sentimos que definirá se elas são boas ou se são ruins (para a gente, claro).

Obviamente isso não quer dizer que não hajam coisas tremendamente ruins e que, por isso, precisam ser evitadas. Morte, miséria, fome, genocídio e um monte de outras coisas dificilmente seriam tidas como boas. Cabe ressaltar, entretanto, que a relação dos indivíduos com cada um desses problemas é que os fará sentirem-se confortáveis ou não diante de diferentes acontecimentos destes tipos, de modo que a sanidade daquele que interpreta a realidade dependerá de ver tudo com menos ódio, mais clareza e cautela — virtudes que nos fazem melhores debatedores e, acima de tudo, melhores seres humanos.

Mestrando em Filosofia (PUCRS). Produzo vídeos de divulgação filosófica no Youtube. Inscreva-se: http://youtube.com/alyssonaugusto

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