Não, os opostos não se atraem

Este texto foi originalmente postado em meu perfil no Steemit, uma plataforma que remunera o criador pelo seu conteúdo, confira:

É muito comum a ideia de que relacionamentos bons são o resultado da união de pessoas de personalidades tão opostas.

Arthur Schopenhauer, filósofo alemão do século XIX, acreditava que a essência de nossas existências é refletida no que ele chamou de Vontade, o motor que nos move às nossas diferentes ambições. Sabemos ser objeto de nossa vontade a concepção de uma vida a dois (ou a mais-que-dois, isso depende de você), e quando atendemos o chamado da vontade acabamos por perpetuá-la.

Embora Schopenhauer acreditasse que a causa de todo nosso sofrimento fosse derivada da vontade, uma vez que quando não conseguimos atendê-la (o que é corriqueiro) acabamos por nos frustrar. Para ele, é pela vontade que procriamos, de modo que o amor seja entendido como mero fruto da natureza humana tentando procriar e manter sua espécie (sem essa de romantismo ou amor platônico).

Para que isso ocorra, buscamos cruzar nossas melhores aptidões com as melhores aptidões de nossos parceiros — o que tornou Schopenhauer reconhecido por ser um dos primeiros filósofos a aplicar a evolução biológica em suas análises filosóficas. Não à toa Schopenhauer dizia, além de que “é a criança que escolhe seus pais”, que os opostos se atraem por uma inclinação da vontade, o que a gente poderia entender aqui (cientificamente falando) como propensão à procriar em prol de variabilidade genética.

▬ “Amor é apenas instinto de sobrevivência da espécie”, Arthur Schopenhauer / Revista Galileu ▬

Mesmo que essa ideia seja corrente e tenha alguma fundamentação bem interessante, eu não creio que a ideia de que “os opostos se atraem” seja uma verdade — ao menos não uma verdade fixa e imutável, pois embora ela sirva para reunir pessoas diferentes e que podem ser vistas como exóticas uma pra outra, essa ideia dos opostos parece servir apenas a uma propensão inicial à união, e não algo que garante a estabilidade do relacionamento.

Pensemos rapidamente no casamento. Trata-se da união entre pessoas distintas, com suas experiências particulares. Porém o que faz um casamento prevalecer não é o diferencial entre os casados, mas as semelhanças que os fazem compartilhar momentos e afinidades ao longo dos anos — semelhanças estas tão necessárias para que qualquer relacionamento sobreviva.

O filósofo inglês John Stuart Mill, em seu livro A Sujeição Das Mulheres(link afiliado), pontua o fato de que relações com tantas discrepâncias de interesses costumam ser relações em que um subjuga o outro, o que não é algo saudável a uma vida a dois, pois “mesmo que a diferença atraia, a semelhança é o que retém.”

▬ Harriet Taylor Mill e John Stuart Mill, casal icônico da filosofia utilitarista moderna, que compartilhava muitas coisas em comum, entre elas o interesse intelectual pela moralidade / Students For Liberty ▬

E se a experiência de vida é uma forma válida de contrastar a legitimidade de ideias, não é difícil atestar como os Mill tiveram uma vida repleta de amor e aceitação plena em sua vida afetiva, enquanto Schopenhauer, tristemente, teve uma vida rancorosa, afetivamente solitária e repleta de amargura pelas mulheres, seres de nossa espécie que ele considerava inferiores.

Por isso, antes de procurar se relacionar com alguém, precisamos saber usar das diferenças como pontes para as semelhanças, fazendo da diversidade de assuntos particulares que nos importam uma oportunidade para que cada um de nós, em suas subjetividades, descubram no Outro interesses novos e que futuramente passarão a ser aquilo que nós retemos em comum.

Pois mais que se atrair pelo diferente, precisamos estar abertos a tornar o diferente algo normal.

Mestrando em Filosofia (PUCRS). Produzo vídeos de divulgação filosófica no Youtube. Inscreva-se: http://youtube.com/alyssonaugusto

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