Feminismo: como o enxergo, qual seu principal problema e como é possível defendê-lo

Pensando o básico sobre feminismo.

Os pensamentos que se seguem são simples, nada pretensiosos e apenas os posto aqui como registro das respostas que dei para um recente questionário interno da página Feminismo Liberal, no Facebook, da qual sou moderador. Se você discorda de qualquer ponto, faço questão que me mostre que estou errado. Como um bom liberal, não espero ter a razão sobre o mundo, mas confesso que se digo algo é porque penso estar certo. Bora lá, então.

1. Como enxergo o feminismo:

Vejo o feminismo como uma sinalização pela equidade de gênero. E entendo sua defesa da equidade não como uma defesa da igualdade (entendo que igualdade seja uma utopia que, na verdade, para existir precisaria ceifar indivíduos, ceifar diferenças), mas como uma defesa do que a equidade mesma significa:

tratar os desiguais desigualmente na medida de suas desigualdades.

Assim sendo, o feminismo é a ideia mesma de que há diferenças entre os gêneros masculino e feminino que precisam ser relevadas para o tratamento de ambos. E admitir essas diferenças não é impossibilitar a igualdade de direitos, mas justamente permitir que essa igualdade surja com bom fundamento: adiantando as necessidades típicas de cada gênero e, por que não, de cada pessoa em sua individualidade.

Os papéis de gênero não precisam ser desconstruídos, mas prontamente atendidos de acordo com as demandas pessoais de cada indivíduo que desempenha um papel, focando portanto no tratamento dirigido às pessoas que vivem diferentes papéis na sociedade, e menos em definir o que seria um papel ideal para cada gênero.

Logo, o feminismo assim visto é um feminismo tipicamente liberal (“laissez faire, laissez aller, laissez passer”), que não dita sobre a identidade de gênero (o que deve ser o homem ou a mulher), mas que permite liberdade a ambos os gêneros para explorarem suas potencialidades.

A preocupação do feminismo, porém, é uma preocupação moral, e diz respeito aos atos dirigidos a cada um desses indivíduos, seja por outros indivíduos ou pelo Estado.

Por vezes este feminismo pode se apoiar nas ações do Estado para coibir ações de indivíduos (ou, por que não, do próprio Estado) contra outros indivíduos, ações derivadas de perspectivas sexistas. Mas, de regra, a preocupação do feminismo liberal, como o entendo, é defender a plena igualdade de direitos baseada em equidade de gênero, desestimulando assim discriminações de cunho econômico e social baseadas em sexismo (o preconceito infundado de que um gênero merece tratamento especial sobre outro), porém percebendo que nem toda discriminação é sexista — às vezes, é objetiva e reflete o mérito de cada indivíduo no desempenho de um mesmo papel.

2. Qual o principal problema do feminismo:

Entendo que toda mudança social passa, antes, por um forte debate de ideias, geralmente acadêmico e, portanto, um tanto distanciado da sociedade como um todo. Isso equivale a dizer que o feminismo, enquanto uma onda principalmente intelectual mesmo nos dias de hoje, é “academicista” e “elitista”, mas não nos moldes significativos do que o senso-comum ativista costuma entender por academicismo e elitismo.

Academicismo, aqui, significa que está amplamente difundido na academia (universidades/faculdades, geralmente de ‘humanas’), lugar próprio da geração de conhecimento humano. Elitismo, aqui, significa que está no domínio de uma minoria, e a esta minoria interessa (uma minoria acadêmica e intelectual). Diante deste contexto, me surge a preocupação quanto ao que acredito ser o principal problema do feminismo atualmente: comunicabilidade.

Comunicabilidade aqui significa facilidade ou disposição de se comunicar. O feminismo é bastante midiático, mas isso não é o mesmo que ser comunicável. É que muitas das ideias feministas, embora estejam sendo materializadas na mídia num geral, não são as ideias propriamente ditas — isto é, conclusões baseadas em certas argumentações, certos fundamentos.

O que quero dizer é que me parece faltar, quando tratamos de feminismo em vistas do grande público, a defesa do que de fato são as ideias feministas, suas teorias e o que elas significam e podem significar para nossos contextos particulares. É muito fácil defender uma ideia caracterizada em um chavão, como “feminismo é a ideia radical de que mulheres também são gente”, sem expor os porquês da necessidade de esse chavão existir e mesmo de ser defendido.

Esse “carnaval de ideias”, que as torna coloridas e fáceis de digerir, serve muito bem para captar mentes confusas e desnorteadas, mas pouco serve para dar-lhes fundamento e convicção em prol de defesas consistentes da causa que dizem levantar. É preciso educar, que seria o ato ou o efeito mesmo de adotar uma boa comunicação. E não é o que se faz quando toma-se o feminismo como dogma — o maior divisor de pessoas e ideologias.

3. Como acredito ser possível defender o feminismo:

Sou professor de filosofia, mas antes de tudo me considero um comunicador. E é por isso que falo em comunicabilidade — é por isso também que administro pelo menos 7 páginas no Facebook, sem falar de outras redes sociais, onde são defendidas ideias com as quais compactuo; mas isso é outro assunto. E é justamente no campo comunicacional que acredito ser o melhor espaço de defesa do feminismo.

Claro, o campo político é necessário; fazer políticas eficientes contra o sexismo, que não sejam baseadas em discriminação mas em inclusão, é um bom ponto a se considerar. Mas, para além do pragmatismo, temos que admitir a condição humana: o ser humano é péssimo para lidar com contradições, de forma que prefere evitá-las. E essa característica inata a todos nós me faz entender que uma boa forma de defender o feminismo é expor as contradições entre a teoria e a prática cotidiana, entre o que uma pessoa diz e o que ela mesma faz.

Aqui cabe uma rápida menção à Sócrates, filósofo grego que aplicava dois métodos em seus debates públicos: a maiêutica e a ironia. A maiêutica, sendo o ato de “dar à luz novas ideias”, resulta do confronto próprio com a contradição. Mas, para isso, Sócrates recorre à ironia, mas não à ironia como entendemos (o ato de zombar, dizendo uma coisa quando se quer dizer outra); trata-se da ironia socrática, que é o ato de demonstrar ignorância ao fazer perguntas, mas direcionar essas perguntas ao seu interlocutor de forma que suas respostas entrem em contradição e o façam perceber que, no fim das contas, é ele o verdadeiro ignorante sobre as ideias que diz dominar.

Recorrer a esse método socrático no campo da comunicação, me parece, é uma boa forma de avaliar as condições pelas quais é possível que mais pessoas apreendam nossos conceitos e suas significações, e que tal apreensão seja definitivamente significativa, uma vez que não foi um conhecimento adquirido da boca para fora, mas sim adquirido de uma situação específica e memorável na qual, para chegar até ele, precisou perceber as falhas lógicas em suas convicções, verdadeiras contradições que lhe deram um choque de realidade para nunca mais retornar aos mesmos erros, libertando-o assim da caverna platônica.

Acredito ser possível, portanto, defender o feminismo. Mas defendê-lo a tal ponto em que se evita criar rixas entre gêneros na mesma medida em que tal defesa brota de uma iniciativa inteligente, comunicativa e aberta ao diálogo, investindo em métodos didáticos para a disseminação do conhecimento feminista de forma construtiva e definitivamente agregadora.

Se você leu até aqui e gostou da reflexão, aperte o coraçãozinho aí embaixo para que mais pessoas descubram este texto. Nos vemos nos comentários!

Mestrando em Filosofia (PUCRS). Produzo vídeos de divulgação filosófica no Youtube. Inscreva-se: http://youtube.com/alyssonaugusto

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store