Dia Internacional da Mulher: o que precisa melhorar

Assista ao vídeo abaixo e/ou acompanhe a transcrição logo em seguida.

Dia Internacional da Mulher: o que precisa melhorar?

Hoje é Dia Internacional da Mulher, então parabéns pra você que merece parabéns. Pra você que não merece ou acha que este dia não faz sentido, tudo bem também. O que não tá tudo bem são diversas coisas que têm acontecido pelo mundo, e que nos fazem pensar sobre essa questão de gênero para além do plano simbólico, com uma visão mais objetiva dos problemas reais que as mulheres enfrentam.

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Bom, só pra deixar claro…, eu convidei uma amiga que estuda esses assuntos pra fazer uma live comigo, a Renata Carvalho, porém ela acabou não podendo e, pra não perder a chance de falar algo neste dia, vou aproveitar nossa conversa pra pontuar algumas notícias nas quais ela me atualizou, valeu? Ah, depois destas notícias eu quero, ao final do vídeo, falar um pouco sobre o problema mais polêmico na questão de gênero aqui no Brasil, que é o do aborto.

Bom…, aqui no Brasil, a primeira coisa mais absurda que rola é a questão da violência doméstica. Pra gente ter uma ideia, houve muito recentemente três casos de mulheres que foram agredidas de forma cruel por seus companheiros, e esses homens eram ou ficantes de uma só noite, ou então mantinham relacionamentos longos. Fora aquele caso da advogada que discutiu com o namorado/marido, sei lá e daí caiu da sacada e morreu.

Isso com toda certeza é algo que temos que combater. E é precisamente por ser necessário combater esse tipo de absurdo que surgiu o polêmico crime de feminicídio. Só que, ao mesmo tempo, embora a gente pode legitimar o feminicídio como uma tipificação penal necessária, ainda assim temos críticas que precisam ser ouvidas, como por exemplo que o feminicídio expressa nada mais que um ativismo jurídico, preocupado não em combater o problema mas em pintar socialmente a narrativa de que os assassinatos de mulheres por seus parceiros íntimos sejam epidêmicos e motivados por ódio específico contra mulheres. Nesse sentido, o termo feminicídio amplamente utilizado na mídia teria uma função de se expandir para a ideia de que qualquer assassinato ou ato de violência contra mulheres é crime de ódio específico contra mulheres.

E isso se torna problemático na medida em que os dados disponíveis sobre esse problema são interpretados de uma forma questionável. Pra vocês terem uma ideia, o discurso sobre as estatísticas quanto ao feminicídio no Brasil se baseiam em dados da OMS. Esses dados informam que, no Brasil, cerca de 1700 mulheres e 3800 homens morrem todos os anos assassinados por seus maridos e esposas, mas o discurso é que mulheres morrem proporcionalmente mais — o que é verdade, afinal em números totais morrem bem menos mulheres no Brasil. O porém é que, em números totais, mesmo na violência doméstica morrem mais que o dobro de homens.

Claro que nada disso afasta o problema sobre o feminicídio — trata-se apenas de pensar metodologia de análise de dados. O que quero deixar claro aqui é que, sim, precisamos atacar com toda a força esse comportamento cruel que recai sobre as mulheres em violência doméstica. Porém precisamos também refletir melhor sobre a violência doméstica sofrida por homens, que parece ser tão grave quanto, se queremos prezar por uma igualdade de gênero cada vez mais exemplar aqui no Brasil.

Eu vou deixar os links desses casos de violência contra as mulheres aí nos comentários do vídeo, bem como pras outras informações.

Mas bem… embora o Brasil seja problemático, quando pensamos em Dia Internacional da Mulher, temos que olhar pras mulheres também em âmbito internacional. E só pra ilustra as coisas, vamos olhar pro mundo oriental, onde tem muita coisa acontecendo nesse sentido.

Como a Renata Carvalho me mostrou, no Oriente Médio tem uma princesa emiratense, chamada Latifa Maktoum, que foi sequestrada pelo próprio pai ao tentar fugir do país.

Essa mesma princesa, que foi tratada como tendo algum tipo de perturbação mental

~~ algo como se ela fosse mitômana, borderline ou se teria surtos psicóticos

essa princesa era uma espécie de celebridade do instagram, já que praticava skidiving. Aliás, pelo visto a prática de esportes radicais é um traço dessa família real, já que uma das irmãs da Latifa parece que chegou a participar das Olimpíadas em 2006 como judoca, enquanto outras irmãs trabalham com projetos de caridade e uma sobrinha é piloto de avião. Enfim, é uma família bem privilegiada no mundo em que vive.

Lá nos Emirados o islamismo é bastante conservador, só que não se tem por lá exatamente uma Arábia Saudita. O que tem é uma sinalização de oposição ao radicalismo islâmico na política — ou seja, uma abertura em vias institucionais pra mudança cultural — e também existe uma certa tolerância com costumes ocidentais, o que sugere que existam “moderados” islâmicos percebendo que precisam secularizar sua sociedade, tentando encaixar o modo de vida ocidental com a sharia, que eles insistem em adotar de forma “branda” e que, de certa forma, acaba por permitir uma certa legitimação social do sequestro de uma mulher adulta por parte do próprio pai.

Ainda no Oriente Médio, cada vez mais e mais homens aderem ao movimento contra o uso compulsório do véu pelas mulheres iranianas. Esse tipo de coisa, pro padrão ocidental, parece um feminismo bobinho. Só que a gente tem que ter em mente que, em se tratando do Islã, hoje é um véu, amanhã é uma burka, e depois de amanhã é a purdah — que seria um costume onde as mulheres não são permitidas de sair de casa e de serem vistas por homens que não sejam seus familiares)… Isso tudo é bem bacana, e a gente não pode esperar que, numa sociedade tomada pela Sharia, as mulheres saiam por aí colocando os peitos à mostra e dizendo “meu corpo, minhas regras”. Se a gente for analisar a própria história de como o ocidente libertou as mulheres, vamos ver lá na origem homens, como John Stuart Mill, escrevendo e se posicionando em defesa das mulheres. Ser protagonista de sua própria causa é algo muito arriscado nesse tipo de sociedade, portanto toda ajuda dos homens com pensamento moderno acaba sendo bem-vinda.

Só que, embora exista esse movimento pela liberação das mulheres no Oriente, cada vez mais os apoiadores da radicalização se tornam agressivos, como que não aceitando a secularização, não sendo raros os relatos de agressões a mulheres que se negam a usar o véu.

Já na Índia, em alguns vilarejos, as mulheres viúvas são isoladas da família, e existe uma situação bem chata lá de os filhos ou outros familiares tirarem delas todos os seus bens. Essas mulheres, às vezes com seus filhos pequenos, são obrigadas a viverem reclusas em comunidades de viúvas, como se fossem criminosas, sendo tornadas párias da sociedade.

A justificação aqui é religiosa, e portanto beira a bizarrice: é que existe a crença deles de que uma mulher que perde o marido não cuidou bem desse marido, sendo incapaz de reter sua alma e impedir que fosse pro outro lado da vida.

Felizmente, ao longo dos anos essas mulheres têm conseguido superar o estigma. Provavelmente essa superação acontece porque as gerações mais recentes tem sido mais complacentes, talvez devido a um cada vez maior contato com o modo de vida ocidental, e hoje em dia é possível ver algumas dessas mulheres participando de festivais de rua onde, antes, teriam sido expulsas.

Esses são alguns casos do mundo oriental que ultrapassam em muitos sentidos a preocupação que nós, brasileiros, geralmente temos com a questão da violência contra as mulheres. Mais uma vez, isso não diminui a gravidade do problema que existe no Brasil, mas isso nos indica que precisamos de um olhar mais atento pra expressões objetivas de sexismo, buscando então meios de amparar, seja simbolicamente, seja com medidas de apoio internacional, essas mulheres que vivem realidades bizarras e para além de qualquer contestação

A Renata Carvalho, que é a feminista liberal que convidei pra bater esse papo comigo hoje mas que não pôde, não apenas me indicou todos esses casos que trago pra vocês, como também falou uma coisa bem interessante: em todos esses casos, ela notou que, em geral, são mulheres delicadas, que refletem um ideal conservador de feminilidade, ou então são mulheres bastante femininas.

A ideia aqui é que, talvez, falte um pouco de responsabilidade por parte das mulheres. Não apenas de responsabilidade como também de agressividade, de terem uma postura impositiva, realmente empoderada, como gostam de falar. Só que aqui no Brasil tem mulheres acreditando, talvez exatamente pelo discurso estatístico de que falei há pouco, que vivemos no Oriente Médio, com opressão pra tudo quanto é lado apenas por você ter nascido mulher, algo que não é culpa sua. E essa crença de que vivemos no “país que mais mata mulheres”, como se fosse sensato acreditar nisso, talvez esteja fazendo com que as mulheres reproduzam esse modelo de feminilidade frágil, esperando que os homens sejam responsáveis por sua segurança.

A Renata propõe então que, embora as políticas públicas sejam coisas muito urgentes pra se pensar, como por exemplo relativas ao aborto e aos crimes sexuais, o fato é que NADA vai melhorar enquanto as mulheres não pararem de pensar em si mesmas como meninas, associando feminilidade à fragilidade.

Aliás, além desse lado cultural e comportamental da questão de gênero, vamos falar de aborto especificamente no caso brasileiro, que sim… é um caso repleto de polêmica mas que exemplifica muito bem um viés sexista da nossa realidade, e daí eu encerro o vídeo.

No brasil surgiu o chamado Estatuto do Nascituro, que é um projeto que garante a proteção do feto, independente das causas em que esse feto foi gerado, e isso significa que o aborto, conforme o Estatuto, deve ser tratado como crime hediondo.

Como vocês sabem, crimes hediondos são os crimes com a maior reprovação por parte do Estado, considerados como sendo o que de mais grave pode ser cometido contra a sociedade.

Dentro desse projeto, os caras inventaram uma tal de “Bolsa Estupro”.

~~ e se o nome é horrível, é porque a situação é bizarra mesmo

basicamente, a bolsa estupro é o pagamento de um determinado valor para a vítima do estupro, referente a uma pensão alimentícia que seria paga pelo estuprador, até que o filho complete seus 18 anos de idade. Caso o estuprador não seja identificado, a responsabilidade do pagamento fica pro governo

~~ em outras palavras, fica na nossa conta, pessoas que pagam impostos.

Essa “pensão alimentícia” eles nomeiam como “auxílio à vítima”. Tudo, claro, em defesa do nascituro.

Eu poderia aqui traçar o quão anti-ético é forçar uma pessoa a ter um filho cuja origem é das mais hediondas, forçando essa pessoa a conviver com o fato de que seu estuprador tá aí, pagando pensão alimentícia e que só falta ele pedir direito a visita nos fins de semana. Mas vou me limitar à questão legal.

Isso porque o Estatuto do Nascituro e sua “Bolsa Estupro” ameaçam a Lei 12.845 de 2013, que dispõe sobre o atendimento emergencial, integral e multidisciplinar à mulher vítima de violência sexual, conferindo a ela o direito ao aborto. Aliás, um direito que foi conquistado com muita, mas muita dificuldade.

É só pensar comigo: o fato é que, durante a violência sexual, a vítima sente dor. Durante todo o período de gestação resultante de um estupro, a vítima sente dor. Após o parto da gestação indesejada, a vítima continua ali, sentindo dor. Ao decorrer de todo o restante de sua vida, a vítima desse estupro vai continuar sentindo dor, sejam físicas, sejam dores psicológicas — em especial as psicológicas, aliás. A gente não pode esperar que uma mulher que foi estuprada tenha qualquer tipo de fantasia do amor materno. Se queremos ser racionais, a gente tem é que esperar que essa mulher sentirá repulsa a cada dia, por ter que conviver e educar o resultado de um estupro.

Faça aqui um experimento mental: o Estatuto do Nascituro tá valendo, e sua mãe foi estuprada. Sua mãe tá sendo obrigada a gestar um filho fruto de um estupro violento, e você tá ali, vendo tudo isso acontecer, vendo a convivência forçada entre a sua mãe, o estuprador

~~ já que ele terá que pagar a pensão alimentícia

e, claro, o seu irmão, que é fruto do estupro da sua mãe, um irmão indesejado, que a sua mãe tem até receio de olhar na cara, e que talvez até tenha feito ela passar por depressão pós-parto.

A mesma situação se aplica a casos análogos. Se sua irmã é estuprada, você terá um sobrinho em decorrência desse estupro, e a convivência vai ser a mesma coisa. Se for sua filha de 13 anos, também.

Sua família não será mais a mesma, será uma família traumatizada, um trauma que poderia ser em todos os sentidos amenizados se à sua mãe, à sua irmã e à sua filha fosse permitido o direito de remediar a crueldade de um estuprador com o aborto. E quando isso não ocorre, ainda tem o problema de o resultado do estupro, um novo ser humano que, sim, não tem culpa nenhuma, ter que conviver à falta de estrutura familiar pra lidar com um problema desses, para o qual nenhuma família está preparada pra lidar.

A lição que fica aqui é a seguinte: se por um lado a gente precisa de mulheres cada vez mais conscientes de que precisam diminuir sua dependência dos homens, também temos, por outro lado, homens totalmente alheios às consequências de um estupro tentando impôr às mulheres, por meio da força coercitiva do Estado, como elas devem lidar com um trauma que só diz respeito a elas e suas famílias — tudo isso, claro, por um ideal de “respeito à vida” que não é realista e mais traz barreiras à liberdade individual do que as protege.

Enfim pessoal, essa é minha reflexão pra este dia. Espero que a gente possa olhar pra esses problemas de forma mais antenada, seja no âmbito brasileiro, seja no âmbito internacional, e aplicando quaisquer princípios na medida em que, contextualmente, são princípios que valem a aplicação.

Então se vocês gostaram da mensagem e querem me ajudar a fazer mais vídeos como este, considerem me apadrinhar. O link para tanto é padrim.com.br/alysson e espero que vocês possam considerar seriamente esta possibilidade.

A caixa de comentários é toda de vocês, deixem seu like e bora continuar o papo aí embaixo…

Eu vou ficando por aqui, meu nome é Alysson Augusto e a gente se vê no próximo episódio. Forte abraço.

Mestrando em Filosofia (PUCRS). Produzo vídeos de divulgação filosófica no Youtube. Inscreva-se: http://youtube.com/alyssonaugusto

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