Alguns pensamentos sobre cotas raciais

Ayn Rand sobre racismo no seu livro “The Virtue of Selfishness”

Meu (acho que) principal problema com as cotas raciais é o caráter discriminatório não justificado da mesma: quer-se combater discriminação na intenção, mas na prática se discrimina pela cor da pele (só procurar pelo significado de discriminação [1. faculdade de discriminar, distinguir; discernimento. 2. ação ou efeito de separar, segregar, pôr à parte.]), privilegiando pessoas pela quantidade de melanina em detrimento daquilo que faz sentido privilegiar (como competências gerais típicas da função que a pessoa exercerá e que nada tem a ver com a cor de sua pele).

Isso porque o argumento histórico faz pouco sentido se analisarmos que os negros que foram escravizados nada têm a ver com muitos negros dos dias de hoje, que provavelmente não têm linhagem direta com os do passado, e que mesmo se tivessem, esses negros do passado também compartilham linhagem direta com brancos dos dias de hoje — que, concorrendo nas cotas contra negros, são prejudicados em função de terem menos melanina. Assim como não há pureza cultural (falo sobre isso em meu vídeo sobre apropriação cultural), não há pureza genética, como se o negro dependesse de uma linhagem para sofrer racismo — na verdade, tão somente depende da cor de sua pele (que pode ou não ser um infortúnio da natureza).

De toda forma, o valor da linhagem é devido à ideia de que negros sofreram constantes opressões historicamente dos últimos 300 anos pra cá (o que é a mais absoluta verdade), como se a pureza genética fizesse sentido ao menos numa consideração social — porém, você sofre racismo não porque seus antepassados sofreram, mas acima de tudo porque há quem diminua seu caráter partindo da cor da sua pele (o fator histórico é apenas um dentre outros — coloque na cabeça a frase “eventos únicos têm múltiplas causas” — , e por isso o papo de que “não existe racismo reverso” é falho, uma vez que racismo é não apenas cultural e independente de nossas vontades, mas também uma ação objetiva direcionada de uma pessoa a outra — e nesse sentido é possível ser racista contra amarelos e brancos, independente das considerações culturais e históricas, bastando haver má-intenção racialmente discriminatória no direcionamento de suas falas e atitudes, provocando um dano constatável).

Além disso, o que é “ser negro/pardo”? Na Bahia, eu sou branco. Aqui no RS, eu sou pardo e já me enquadro em cotas raciais. Se hoje há tribunais raciais tentando combater as inúmeras fraudes de autodeclaração, não é sem motivo — nós pedimos por isso ao pedirmos cotas raciais, pois não há política sustentável sem objetividade.

Ocorre, porém, que cotas no geral não são ruins por haver problemas apontáveis. As cotas sociais, por exemplo, têm caráter objetivo: medem quem as merece ou não a partir da renda, que é um padrão econômico para todos. As cotas sociais englobam todos os que necessitam, especialmente porque negros bem de vida, de classe média alta, podem pagar por seus estudos tranquilamente. E as cotas sociais, uma política neoliberal (sempre afirmarei isso enquanto houver o mito de que cotas são política de esquerda — pesquisem aí “Milton Friedman, imposto negativo”) têm tanto sucesso porque lidam com o preconceito da forma como ele deve ser tratado: o preconceito deve ser visto como externalidade, não como pressuposto e fundamento. Do contrário, chegaremos a cotas para asiáticos, nordestinos, muçulmanos, gordos, homossexuais, travestis, agêneros, transsexuais, otherkins (pessoas que se identificam parcial ou inteiramente como não-humanos), mulheres, otakus, venezuelanos e torcedores de times de série C — o que é não apenas economicamente insustentável mas, acima de tudo, injustiça (Aristóteles e Robert Nozick que o digam).

Ayn Rand é uma autora venerada por uns e odiada por outros (como é comum que seja com autores polêmicos). Dentre suas falhas, porém, como defender que o ser humano opere acima de tudo pela razão (o que Daniel Kahnemann mostra ser falso em seu livro “Rápido e Devagar”), podemos encontrar um direcionamento ético maduro e bem orientado, como por exemplo nesta passagem [imagem deste post] de seu livro “The Virtue of Selfishness: A New Concept of Egoism”, em que fala abertamente sobre racismo e por que uma pessoa virtuosa não deve ser racista (percebam como sua fala ataca não apenas o racismo, mas também o argumento histórico para cotas raciais).

Mestrando em Filosofia (PUCRS). Produzo vídeos de divulgação filosófica no Youtube. Inscreva-se: http://youtube.com/alyssonaugusto

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