A imparcialidade não foi só perdida; ela deixou de ser desejada

Há poucos dias, durante uma palestra, um estudante replicou aos meus apontamentos com um discurso interessante, embora nada objetivo e bastante demagógico. Não tive a oportunidade de rebater seus pontos, então solto aqui como comentário, para que eu possa lembrar desse momento.

De todas as coisas que ele falou, o que mais me chamou atenção foi seu posicionamento sobre minha defesa do ceticismo, de que devemos conferir o máximo de visões possíveis sobre um assunto antes de defendermos uma bandeira e de tomarmos ela como Verdade.

Em resumo, ele disse estas exatas palavras:

“Sinto muito, mas acho que é bárbaro que nós busquemos a imparcialidade, a isenção, e tentemos olhar sempre para os dois lados dos prós e contras… mas não tem prós.”

Eu particularmente gosto de acreditar que o ambiente acadêmico deve, necessariamente, ser principiológico. Ou seja, deve tomar como norte algo a ser atingido, por mais inalcançável que seja.

Isso significa dizer que o ambiente acadêmico deve ter propósitos claros e fundamentais, que justifiquem a sua existência. Um norte defensável, aqui, seria a busca pela maior aproximação possível da imparcialidade em prol de um conhecimento mais abrangente.

Afinal, sem sombra de dúvidas é preferível um acadêmico aberto a conferir todos os lados da moeda sobre um mesmo assunto do que tomar tão somente um lado como verdade absoluta e imutável (seja porque é “de esquerda”, seja porque é “de direita” — tanto faz).

Todos sabemos o resultado de quando isso não ocorre: dogmatismo. A crença de que aquilo que você sustenta é, de fato, verdade. E ponto final.

Um pensador contemporâneo que certa vez falou de forma objetiva e linda sobre a imparcialidade é o filósofo português Desidério Murcho. Suas palavras, parafraseio aqui:

“Um professor que não toma como norte a imparcialidade é como um jurista que não toma como norte de seu ofício a justiça.”

Que dirá de um ambiente que se pretende filosófico, repleto de “pensamento crítico” e libertador dos pobres e oprimidos.

Infelizmente, de alguma forma a academia abriga juristas parciais e professores injustos.

Mestrando em Filosofia (PUCRS). Produzo vídeos de divulgação filosófica no Youtube. Inscreva-se: http://youtube.com/alyssonaugusto

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