Ética A Priori, Filosofia e Vieses Cognitivo

Defensores de uma ética apriorística parecem ter ficado presos no passado.

Assista ao vídeo abaixo e/ou leia a transcrição logo em seguida.

Ética A Priori, Filosofia e Vieses Cognitivos

Como estudante de ética, me parece simplesmente óbvio que não podemos pensar a normatividade, o certo e o errado, apenas extraindo intuições das nossas cabeças — é preciso sempre olhar pro mundo lá fora, tentar entender suas correlações e causalidades, pra então ter uma base firme a partir da qual sugerir o que é (ou deveria ser) o certo e o errado.

Isso me aproxima inevitavelmente da ciência que, pelo método empírico, busca entender essa realidade em suas relações entre objetos, suas causas e seus efeitos — e nós podemos falar aqui em psicologia cognitiva, psicologia evolutiva, em economia comportamental, em sociobiologia, e por aí vai…

Só que existe uma relação dialética aqui entre a ciência e a filosofia.

Isso porque ainda que uma abordagem filosófica seja tanto mais completa quando as suas premissas não negam dados científicos, essas relações, por outro lado, precisam ser explanadas filosoficamente, daí que mesmo que eu dê fundamentos científicos pelos quais a normatividade possa ser MAIS CONSISTENTE, eu ainda preciso entender esses fundamentos no seu status ontológico, na sua relação com a totalidade, destrinchando então o que esses dados cientiifcamente constatáveis realmente dizem.

Ah, vale dizer que “Consistência”, nesse sentido, é diferente de coerência interna, afinal um sistema que é internamente coerente não é o mesmo que um sistema que é consistente com os dados objetivos da realidade. Por exemplo, até onde sei a psicanálise é coerente internamente, mas ela não é consistente, pois não dialoga em co-extensão com os métodos de investigação empírico que chamamos de ciência, o que nos permite dizer que psicanálise não apenas é inconsistente como também é pseudociência, por exemplo.

Assim sendo, uma filosofia, em especial uma ética, que busca para si o status de consistente, é uma ética que dialoga na interdisciplinariedade — é uma ética que, como diria meu professor de dialética Eduardo Luft, é uma filosofia de fato, tem um grau de generalidade abrangente o suficiente para somar as ontologias específicas e defender uma ontologia geral e, portanto, sistêmica.

Bom, pra vocês terem uma ideia do que tô dizendo aqui… quando você tá preocupado em entender as relações entre as diferentes áreas e pensar em nuances, a coisa vai ficando cada vez mais fascinante na medida em que as associações entre os assuntos vão sendo percebidas e feitas…

Essa semana mesmo aconteceu isto comigo:

“caramba, eu tava aqui falando de Ética Argumentativa que parece (ou é) bastante intuitiva, e agora tô revendo algumas coisas sobre conhecimento a priori, e de repente me vejo descobrindo o enigma de Frege e ouvindo falar pela primeira vez de Semântica 2D… e meu deus, como pode alguém fazer filosofia se baseando em intuição apriorística sem base em mundo empírico? Isso beira o retardo mental.”

Mas bem, como você não quer fazer afirmações dúbias sem consultar a realidade, você olha pro mundo real e percebe que retardo mental é um dos transtornos neuropsiquiátricos mais comuns em crianças e adolescentes — o que explica aí boa parte desse “raciocínio apriorístico” ser atraente para jovens ideologicamente engajados.

Porém, o fato é que existem muitos adultos que se esforçam pra se convencerem de que suas ideias não são ideias retardadas, e sim ideias plenas, ou então como gostam de dizer, são ideias “irrefutáveis” — pois são “derivadas a priori”. Ora, não podemos dizer que tais adultos são retardados, na verdade eles não costumam estar nessa condição patológica — embora às vezes eles partilhem algum grau de autismo.

O que provavelmente está acontecendo é algo que acontece com todos nós: adultos que acreditam em ética apriorística são adultos que tomaram essa crença como parte de sua própria identidade. Quando você critica a crença desse adulto, portanto, você por derivação critica a sua identidade. Logo, o adulto se sente contraído, se sente mal, é como se aquilo em que ele acredite não fosse apenas falso, mas também a prova de que o adulto é irracional — e ele sabe reconhecer isso.

Portanto, por um simples fato evolutivo, quando o cérebro do adulto se vê numa situação de conflito, ele precisa reagir, ele precisa buscar conforto em algum lugar para não sobrecarregar seu custo energético, e é aí que surgem os chamados Vieses cognitivos, que na psicologia e economia comportamental são uma espécie de tendência de pensar de certa forma que leva a desvios sistemáticos de raciocínio lógico e, claro, leva adultos com autonomia a tomarem decisões irracionais.

Ou seja, temos aqui um dado descritivo da realidade, que é o viés cognitivo, dialogando na forma de dado empírico pelo qual a filosofia pode pensar e repensar suas próprias estruturas enquanto ontologia geral. Mas como não importa o mundo empírico pros defensores de uma ética apriorística, bem… então danem-se os vieses cognitivos, o importante é que “a ética feita de modo a priori é irrefutável”.

Assim fica fácil permanecer adulto com patologia de criança.

Enfim pessoal, queria só trazer essa reflexão hoje pra vocês, questionando aí mais uma vez alguns refutadores.

Eu quero saber o que vocês acham desse assunto… O raciocínio a priori é definitivo para a ética? Ou, na verdade, essa é apenas uma armadilha retórica criada pra manter uma bolha de convencimento mútuo que não dialoga com o entorno da realidade?

Bom, se vocês querem me ajudar a soltar mais dessas “críticas argumentativas filosófica e cientificamente fuderosas”, o link pra financiar a causa é padrim.com.br/alysson e então estão todos convidados a salvarem este desempregado que vos fala.

Meu nome é Alysson Augusto e a gente se vê nos comentários. Forte abraço.

Mestrando em Filosofia (PUCRS). Produzo vídeos de divulgação filosófica no Youtube. Inscreva-se: http://youtube.com/alyssonaugusto

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